Perfil psicológico e saúde da mulher

Estas duas condições estão intimamente ligadas e o conhecimento de uma pode contribuir enormemente para a
boa manutenção da outra, mas sem o pensamento simplista de causa e efeito.
É importante observar como cada uma das doenças psicológicas pode se ajustar a diferentes tipos de perfis psicológicos. O perigo - ao qual o profissional deve estar alerta - é cair numa linha de pensamento clínico bastante reducionista, que poderíamos chamar de "psicologismo". Ainda assim, esse conhecimento pode ser de grande valia para o profissional. A seguir dois exemplos.

Climatério

Quanto ao perfil psicológico da paciente com síndrome do climatério, devemos observar que nessa faixa etária a mulher se encontra em transição existencial, ou seja, há uma verdadeira mudança de papel na vida, semelhante à transição na adolescência, mas envolvendo mais perdas do que ganhos.
Os sentimentos básicos das épocas de transição são a insegurança e o medo. No climatério, também ocorrem modificações do esquema e da dinâmica corporal, e a riqueza dos sintomas depende de como a mulher interpreta e vivencia e transformações e perdas. Destacam-se a depressão e a hipocondria como características psicológicas da síndrome.
A sintomatologia do climatério é particularmente intensa nas mulheres que focalizam o prazer de viver nos papéis de "esposa" e "mãe". As que chegam solteiras a essa fase da vida têm a sensação de que acabaram as chances de ter vínculo com um homem. As casadas enfrentam a situação de um marido ocupado com o trabalho na maior parte do tempo, geralmente no auge da carreira profissional, e que também se encontra na crise da meia-idade, propenso a relações extraconjugais com mulheres mais jovens, na tentativa de aliviar o medo de envelhecer.
Os filhos em geral estão adultos e se desligando da família. A mulher fica sem saber o que fazer com o tempo excessivo que lhe sobra. É a chamada "síndrome do ninho vazio".
Estão mais vulneráveis a esses sintomas as mulheres: de caráter rígido, com personalidade obsessiva e controladoras, que temem ver o marido, os filhos e o próprio corpo "fora de controle", com interesses limitados e com poucas áreas de atividade.
Por si só a perda da capacidade reprodutora pode levar à depressão. Mas, para as pacientes que enxergam o papel feminino limitado à maternidade, essa perda assume um peso muito maior.

Mulher com vaginismo

Em relação ao perfil psicológico da paciente que apresenta vaginismo, é clássica a descrição da chamada "personalidade vagínica".

Algumas das principais características desse tipo de personalidade:

Fortes componentes obsessivos;

Atitudes controladoras e medo intenso de sentir-se "sem controle" dos fatos e das pessoas que as cercam;

Dificuldade em ceder em suas opiniões;

Gostam de sentir que "dominam a situação".

Nas consultas médicas, costumam tentar conduzir o raciocínio do ginecologista;

Autoritarismo.


É interessante assinalar que também se verifica um perfil psicológico do marido da paciente vagínica. Geralmente é um homem tímido, muito submisso, com pouca capacidade de tomar decisões ou defender opiniões e muito preocupado em agradar a esposa, colocando sistematicamente os interesses dela acima dos seus próprios.
A contratura espástica da musculatura perineal superficial e profunda que caracteriza o vaginismo, causando a dor, é uma reação de defesa contra a penetração vaginal. Diz-se ser uma defesa primitiva porque só se manifesta no nível corporal (como é próprio da infância), sem elaboração intelectual (como seria próprio do adulto). Normalmente, a mulher vagínica conscientemente lamenta-se pelo vaginismo e declara grande desejo de ser penetrada. Apesar dessa "declaração de desejo", reclama que "o corpo não ajuda", ou seja, falta a consciência da própria recusa de penetração.
Podemos ter uma idéia da situação da mulher com vaginismo usando uma analogia: o ato de aparar as unhas pode ser realizado por nós mesmos, com a tesoura sob nosso controle, ou podemos pedir a alguém que realize a tarefa.
Esse ato, provavelmente, adquirirá maior conotação de perigo se a tesoura está na mão de outra pessoa, portanto, fora de nosso controle, e o medo varia de intensidade conforme nossa capacidade de confiar no outro, conseqüentemente abrindo mão do próprio controle.
No nível psíquico, a mulher vagínica associa "penetração vaginal" com "conseqüência inaceitável". Daí o espasmo defensivo da musculatura perivaginal.

Ciências humanas

Nas décadas dos 30 a 60, o pensamento psicossomático foi dominado pelas teorias de Franz Alexander, da Universidade de Chicago, reforçadas por Helen F. Dunbar, as quais apregoavam que cada doença tem seu perfil psicológico específico. Essa tese ficou conhecida por Teoria da Especificidade. Tal teoria nos levaria a crer que toda paciente que apresentasse cada uma das enfermidades ginecológicas citadas acima deveria obrigatoriamente portar as características psicológicas citadas em cada um dos perfis psicológicos descritos. Seria uma relação aproximadamente do tipo: "Diga-me qual tua disfunção ginecológica e eu te di rei quem és, o que pensas e o que sentes'"
Nos dias de hoje, é evidente que esse modo de entender os perfis psicológicos contraria frontalmente um dos pilares fundamentais da moderna medicina psicossomática: a individualidade. Rejeita-se a idéia de um psiquismo padronizado e genérico para todas as pacientes. O que confere ao corpo humano a condição de pessoa é justamente sua biografia, e esta é única para cada indivíduo.
É por isso que, dos múltiplos sintomas que podem estar incluídos na síndrome pré-menstrual, não há duas pacientes com a mesma combinação de sintomas, na mesma intensidade, com exatamente a mesma evolução.
Por outro lado, não há dúvida de que alguns traços psicológicos se refletem de modo repetitivo em certas enfermidades, apesar das diferenças pessoais das pacientes.
Uma compreensão mais clara e profunda do uso adequado de perfis psicológicos no entendimento das doenças ginecológicas funcionais pode ser atingida pelas concepções de Max Weber, filósofo alemão considerado o pai da moderna sociologia.
Weber não aceita que se faça um abismo entre as ciências exatas e as humanas. O mesmo esquema lógico de prova nos dois grupos de ciências sustenta a consideração de que os fenômenos obedecem a uma regularidade causal. Porém, se a lógica da explicação causal é a mesma tanto nas ciências exatas quanto nas humanas, os tipos de leis gerais a serem formulados em cada grupo de ciências não são iguais.
As ciências exatas usam a conceituação generalizadora, que tira do fenômeno concreto aquilo que ele tem de geral, ou seja, sua regularidade. E tudo que existe no fenômeno e não se enquadra na generalização é considerado acidental, obra do acaso.
Por outro lado, a psicologia é uma ciência humana. Portanto, na análise de uma disfunção ginecológica qualquer, os sintomas assumem um sentido ou significado simbólico, mediante a história de vida da paciente, não existindo algo que seja considerado acaso.
Segundo Weber, apesar de a rigorosa observação dos fatos ser essencial para o cientista humanista (tal como nas ciências exatas), o método das ciências exatas não permite e não se presta à captação desses sentidos e significados contidos nos fenômenos humanos.
As leis em ciências humanas não se prestam a relações matematicamente rígidas de causa-efeito, mas sim estabelecem relações causais em termos de probabilidades e concomitâncias, segundo as quais determinados processos devem se seguir ou serem concomitantes a outros.
Assim, quando falamos em coincidência entre personalidade obsessiva e vaginismo, não podemos afirmar que toda mulher vagínica apresenta um transtorno obsessivo ou que toda personalidade obsessiva acarreta o vaginismo. Afinal, como é comum acontecer em nosso meio, nós todos precisamos contar com alguns traços de obsessividade para, por exemplo, estar em atividades científicas durante um fim de semana ensolarado. Mas isso, por si só, não determina a existência de uma doença, que é um processo biopsicossocial complexo.  

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