Voz fanhosa, falta de ar, mal-estar... Quem já pegou uma gripe, um resfriado que seja ou sofre de rinite sabe que, entre todos os sintomas clássicos desses males, nenhum é mais desagradável do que a dificuldade para respirar. E não adianta assoar, porque não é catarro que está entupindo o nariz. Nessa hora de aperto, muita gente - mas muita mesmo não pensa duas vezes e recorre aos descongestionantes nasais. Eles são os campeões de vendas nas farmácias, principalmente no outono e no inverno. Tanto que injetaram, só no ano passado, mais de 27 milhões de reais na indústria farmacêutica.
O alívio que esses remédios trazem é líquido e certo, mas é aí que mora o perigo. Eles contêm substâncias como a nafazolina, a fenoxazolina e a oximetazolina, que causam vasoconstrição, ou seja, fazem com que os vasos sangüíneos se apertem, dando espaço para o ar entrar com mais facilidade. Entretanto, seu uso constante causa dependência. Por uso constante entenda-se poucos dias consecutivos. "Bastam cinco, em média, para instalar o vício!", alerta a alergologista e imunologista pediátrica Renata Rodrigues Cocco, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. "A resposta dos vasos toma-se cada vez mais curta e, por isso, são necessárias doses maiores do medicamento para o mesmo efeito", explica o otorrinolaringologista Douglas  Salmazo Rocha Morales, do Hospital São Camilo, em São Paulo.
Além de induzirem ao vício, os descongestionantes nasais podem causar aumento da pressão arterial e taquicardia. "Por causa da ação vasoconstritora, o coração precisa trabalhar mais para bombear o sangue", conta Leonardo Haddad, otorrinolaringologista da Faculdade de Medicina do ABC, na Grande São Paulo. Quem tem problemas circulatórios deve ficar longe deles. E as crianças? Para as que têm menos de 2 anos, o remédio é proibido, a menos que o médico recomende. Acima dessa idade, só estão indicadas as fórmulas pediátricas, também sob orientação do especialista. 

Crise de abstinência

Quando a dependência já é fato consumado, a primeira coisa a fazer é interromper o uso do descongestionante, custe o que custar. Em seguida consulte um médico para que ele descubra a razão do entupimento freqüente. Depois, é só seguir o tratamento indicado, que pode incluir ou não outros tipos de medicamento que ajudam a desobstruir o nariz.

Gotinhas que viciam

Entenda por que os descongestionantes vasoconstritores causam dependência:
1 - Quando vem a gripe, por exemplo, os vasos do nariz ficam inchados,o que afeta também a mucosa, dificultando a entrada do ar pelas narinas.
2 - Os descongestionantes agem na parede dos vasos fazendo com que eles se contraiam. Assim, diminui o inchaço, o nariz se desentope e o ar circula sem problemas.
3 – Horas depois os vasos voltam a se dilatar. Depois do remédio, ficam mais grossos e as narinas se entopem. O alívio só vem com uma nova dose. É o círculo vicioso.

Deixe o ar entrar

E já que é in-su-por-tá-vel ficar com o nariz entupido, eis a pergunta que não quer calar: se não se pode usar descongestionantes o que fazer na hora em que o nariz se entope? Encha um conta-gotas de soro fisiológico, despeje o conteúdo dentro das narinas e assoe em seguida. Repita o processo de duas a três vezes por dia. "Após 24 horas de aberta a embalagem, o produto já está inapropriado para uso alerta Renata Rodrigues Cocco. Se a obstrução for freqüente, procure o otorrino.