Quando me convidaram para fazer esta reportagem, me senti um peixe fora d'água. Afinal, nunca tinha feito sequer uma aula de balé na vidal De propósito, nem quis me informar com a professora Otília Françoso, a Didi, sobre o que é a dança espontânea, por achar que o elemento surpresa tornaria mais rico o relato da minha experiência.
Conheci as alunas durante o aquecimento: Laís, 38, professora de comunicação visual, e Rosana, 33, bióloga, ambas no grupo desde fevereiro, e Andréa, 34, empresária de comunicação, que há seis anos é adepta dessa prática. Elas se apresentaram enquanto aquecíamos tornozelos, pernas, joelhos, coluna, tudo como em qualquer aula tradicional de ginástica.
Depois, deitamos e passamos a imaginar uma bolinha de luz que nascia abaixo do umbigo e percorria todo o nosso corpo. Que exercício esquisito, pensei ... É que nessa aula iríamos trabalhar com imagens, e estas são criações mentais, daí a necessidade de conectarmos a mente e o corpo.
A dança propriamente dita começou em seguida, com movimentos que consistiam em "olhar" o espaço usando uma parte do corpo de cada vez. Você já pensou em olhar uma sala com seu cotovelo? em eu! A gente se movia solta pelo salão e, sempre que cruzava com uma colega, devia interagir com ela, "cumprimentando-a". Fui orientada a olhar mais para o chão do que para as pessoas, para me ambientar com elas e com o espaço. Mas, na hora de me mexer "integrando" todas as partes do corpo, achei dificílimo: me senti completamente fragmentada, sem conseguir "reunir as partes". Pensei até em desistir, sentar no chão e ficar só assistindo.
Mas fui em frente. Aos poucos, comecei a me libertar da imagem mental e, principalmente, parei de me criticar. Passei a me sentir bonita dançando, embora meus movimentos não fossem tão harmoniosos como os das outras moças, que de vez em quando eu observava de rabo de olho. Meus braços e pernas ficaram mais ágeis e meu corpo inteiro entrou no ritmo de música new age, deliciosamente relaxante e ao mesmo tempo energizante. Sem me olhar mais na imagem, senti que minha dança fluía cada vez melhor. Bom, ritmo eu tenho de sobra, pensava. É só perder a timidez e se soltar.
E não foi tão difícil, porque durante a aula ninguém se encara, fica cada um na sua própria dança, na sua viagem. Também não se ensina nenhum tipo de coreografia. Você inventa os seus passos. Percebi que fui me esquecendo das outras alunas, da vida lá fora, dos problemas. Esqueci até do tempo.
A aula incluiU também vários exercícios, como o "toque e congele". Dispostas em círculo, de olhos fechados, nos movíamos até tocar uma parte do corpo da outra - que, então, congelava o movimento e esperava outro toque para voltar a dançar. Era uma preparação para o exercício do tapete mágico. Sim, como na história de Aladim, iríamos viajar num tapete voador! Fomos orientadas a imaginar diversas portas: a um comando, deveríamos escolher uma delas, entrar e dançar conforme o que encontrássemos lá.
Em minha primeira porta - depois de uma rápida sobrevoada de tapete por Paris que resolvi me dar de presente, visualizei uma praia linda, com aquele mar azul do Caribe. Dançando ao sabor das ondas, percebi o quanto estava cansada. Já me sentia nas Ilhas Virgens quando ouvi Didi me dizendo para abrir a segunda porta. Foi incrível: visualizei o grande amor que sempre sonhei ter na vida e senti um amor imenso, não só por uma pessoa específica, mas pelo mundo inteiro. Saí rodopiando pelo salão e dando um grande abraço no mundo, e também em mim mesma.
Ao abrir a terceira porta me imaginei dentro de um túnel iluminado, com uma luz ainda mais forte ao fundo, e dancei em direção a ela, que me chamava com carinho. Tinha perdido a noção do tempo. Eu me sentia maravilhosamente bem e dona do meu pedaço de salão. O cansaço sumira, nem parecia que não fazia exercícios físicos havia quase seis meses ...
A voz de Didi soou, avisando que era hora de nos despedirmos de nossos tapetes. Dura tarefa essa ... Eu queria ficar voando nele por muito tempo ainda! Depois, sentadas no chão tomando chá, compartilhamos as experiências. Uma das moças disse que, numa das portas, fora perseguida pela sua "bolinha vermelha" criada no começo da aula; outra revelou como descobriu sua dificuldade de se expressar em público; a outra falou do susto que levara numa das portas, ao se sentir tonta e perdida. Foram brotando sentimentos e sensações profundas, que me deixaram impressionada. Ao contar minha experiência, percebi claramente que o amor que abracei tanto era o amor que quero dar a mim mesma - uma de minhas maiores dificuldades! Me senti muito à vontade nesse longo papo, que valeu como uma terapia. Eu, que andava com insônia, dormi feito um anjo naquela noite!
Didi me explicou depois que a proposta da dança espontânea é estimular a busca interior e a transformação pessoal. Ela não ensina coreografias, não dirige os movimentos nem interfere neles; atua apenas como intermediária, estimulando cada um a descobrir seu próprio movimento. E é esse reconhecimento do corpo que permite que a pessoa se conheça melhor. Além disso, a prática não exige formação em dança. Ao contrário: quanto menos experiência na área o aluno tiver, mais espontânea e prazerosa será sua dança. Didi diz ainda que não atua como terapeuta, pois acredita que, quando chegar o momento certo, a pessoa sozinha vai elaborar e entender tudo o que vivenciou durante as aulas.
E o exercício do tapete mágico? Segundo Didi, sua finalidade é ajudar a pessoa a contatar a dor, identificar sua dificuldade e buscar uma nova saída, para se transformar. As imagens surgem de uma sensação e percepção únicas: "Seu tapete funcionou de um jeito naquele momento, mas em outro dia ele poderia levar você a outras portas". A explicação me ajudou a compreender que, ao buscar o amor e ver o túnel de luz, eu estava não só descobrindo um conflito meu, mas principalmente encontrando um caminho para resolvê-lo.
Ter mais consciência do corpo, deixar as emoções aflorarem, se conhecer, relaxar, sentir um grande bem-estar. Quanta coisa percebi naquelas simples duas horas de aula! Conversei mais tarde com minhas colegas sobre os benefícios da dança espontânea. Para Laís, ela trouxe a liberdade do movimento no cotidiano: "Vale mais do que terapia porque a dica vem do corpo, e num movimento não domesticado, o que é muito importante", contou. Rosana, que sempre adorou dançar, falou do poder de relaxamento: "Como você não precisa se preocupar em acertar o passo, desliga a cabeça e viaja". E Andréa, a veterana do grupo, ressaltou a importância do sentir: "A gente é muito mental hoje em dia, e essa dança nos deixa mais atentas à inteligência que o nosso corpo tem".
Concordo e assino embaixo. Tenho certeza de que, na próxima semana, estarei de novo naquele salão, me entregando ao meu corpo, me libertando das amarras, me buscando...
Conheci as alunas durante o aquecimento: Laís, 38, professora de comunicação visual, e Rosana, 33, bióloga, ambas no grupo desde fevereiro, e Andréa, 34, empresária de comunicação, que há seis anos é adepta dessa prática. Elas se apresentaram enquanto aquecíamos tornozelos, pernas, joelhos, coluna, tudo como em qualquer aula tradicional de ginástica.
Depois, deitamos e passamos a imaginar uma bolinha de luz que nascia abaixo do umbigo e percorria todo o nosso corpo. Que exercício esquisito, pensei ... É que nessa aula iríamos trabalhar com imagens, e estas são criações mentais, daí a necessidade de conectarmos a mente e o corpo.
A dança propriamente dita começou em seguida, com movimentos que consistiam em "olhar" o espaço usando uma parte do corpo de cada vez. Você já pensou em olhar uma sala com seu cotovelo? em eu! A gente se movia solta pelo salão e, sempre que cruzava com uma colega, devia interagir com ela, "cumprimentando-a". Fui orientada a olhar mais para o chão do que para as pessoas, para me ambientar com elas e com o espaço. Mas, na hora de me mexer "integrando" todas as partes do corpo, achei dificílimo: me senti completamente fragmentada, sem conseguir "reunir as partes". Pensei até em desistir, sentar no chão e ficar só assistindo.
Mas fui em frente. Aos poucos, comecei a me libertar da imagem mental e, principalmente, parei de me criticar. Passei a me sentir bonita dançando, embora meus movimentos não fossem tão harmoniosos como os das outras moças, que de vez em quando eu observava de rabo de olho. Meus braços e pernas ficaram mais ágeis e meu corpo inteiro entrou no ritmo de música new age, deliciosamente relaxante e ao mesmo tempo energizante. Sem me olhar mais na imagem, senti que minha dança fluía cada vez melhor. Bom, ritmo eu tenho de sobra, pensava. É só perder a timidez e se soltar.
E não foi tão difícil, porque durante a aula ninguém se encara, fica cada um na sua própria dança, na sua viagem. Também não se ensina nenhum tipo de coreografia. Você inventa os seus passos. Percebi que fui me esquecendo das outras alunas, da vida lá fora, dos problemas. Esqueci até do tempo.
A aula incluiU também vários exercícios, como o "toque e congele". Dispostas em círculo, de olhos fechados, nos movíamos até tocar uma parte do corpo da outra - que, então, congelava o movimento e esperava outro toque para voltar a dançar. Era uma preparação para o exercício do tapete mágico. Sim, como na história de Aladim, iríamos viajar num tapete voador! Fomos orientadas a imaginar diversas portas: a um comando, deveríamos escolher uma delas, entrar e dançar conforme o que encontrássemos lá.
Em minha primeira porta - depois de uma rápida sobrevoada de tapete por Paris que resolvi me dar de presente, visualizei uma praia linda, com aquele mar azul do Caribe. Dançando ao sabor das ondas, percebi o quanto estava cansada. Já me sentia nas Ilhas Virgens quando ouvi Didi me dizendo para abrir a segunda porta. Foi incrível: visualizei o grande amor que sempre sonhei ter na vida e senti um amor imenso, não só por uma pessoa específica, mas pelo mundo inteiro. Saí rodopiando pelo salão e dando um grande abraço no mundo, e também em mim mesma.
Ao abrir a terceira porta me imaginei dentro de um túnel iluminado, com uma luz ainda mais forte ao fundo, e dancei em direção a ela, que me chamava com carinho. Tinha perdido a noção do tempo. Eu me sentia maravilhosamente bem e dona do meu pedaço de salão. O cansaço sumira, nem parecia que não fazia exercícios físicos havia quase seis meses ...
A voz de Didi soou, avisando que era hora de nos despedirmos de nossos tapetes. Dura tarefa essa ... Eu queria ficar voando nele por muito tempo ainda! Depois, sentadas no chão tomando chá, compartilhamos as experiências. Uma das moças disse que, numa das portas, fora perseguida pela sua "bolinha vermelha" criada no começo da aula; outra revelou como descobriu sua dificuldade de se expressar em público; a outra falou do susto que levara numa das portas, ao se sentir tonta e perdida. Foram brotando sentimentos e sensações profundas, que me deixaram impressionada. Ao contar minha experiência, percebi claramente que o amor que abracei tanto era o amor que quero dar a mim mesma - uma de minhas maiores dificuldades! Me senti muito à vontade nesse longo papo, que valeu como uma terapia. Eu, que andava com insônia, dormi feito um anjo naquela noite!
Didi me explicou depois que a proposta da dança espontânea é estimular a busca interior e a transformação pessoal. Ela não ensina coreografias, não dirige os movimentos nem interfere neles; atua apenas como intermediária, estimulando cada um a descobrir seu próprio movimento. E é esse reconhecimento do corpo que permite que a pessoa se conheça melhor. Além disso, a prática não exige formação em dança. Ao contrário: quanto menos experiência na área o aluno tiver, mais espontânea e prazerosa será sua dança. Didi diz ainda que não atua como terapeuta, pois acredita que, quando chegar o momento certo, a pessoa sozinha vai elaborar e entender tudo o que vivenciou durante as aulas.
E o exercício do tapete mágico? Segundo Didi, sua finalidade é ajudar a pessoa a contatar a dor, identificar sua dificuldade e buscar uma nova saída, para se transformar. As imagens surgem de uma sensação e percepção únicas: "Seu tapete funcionou de um jeito naquele momento, mas em outro dia ele poderia levar você a outras portas". A explicação me ajudou a compreender que, ao buscar o amor e ver o túnel de luz, eu estava não só descobrindo um conflito meu, mas principalmente encontrando um caminho para resolvê-lo.
Ter mais consciência do corpo, deixar as emoções aflorarem, se conhecer, relaxar, sentir um grande bem-estar. Quanta coisa percebi naquelas simples duas horas de aula! Conversei mais tarde com minhas colegas sobre os benefícios da dança espontânea. Para Laís, ela trouxe a liberdade do movimento no cotidiano: "Vale mais do que terapia porque a dica vem do corpo, e num movimento não domesticado, o que é muito importante", contou. Rosana, que sempre adorou dançar, falou do poder de relaxamento: "Como você não precisa se preocupar em acertar o passo, desliga a cabeça e viaja". E Andréa, a veterana do grupo, ressaltou a importância do sentir: "A gente é muito mental hoje em dia, e essa dança nos deixa mais atentas à inteligência que o nosso corpo tem".
Concordo e assino embaixo. Tenho certeza de que, na próxima semana, estarei de novo naquele salão, me entregando ao meu corpo, me libertando das amarras, me buscando...




