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O governo chinês anunciou nesta segunda-feira (12) a imposição de sanções contra o ministro das Tecnologia da Informação do Paraguai, Gustavo Villate, e ao chanceler de Belize, Francis Fonseca, por considerar que ambos cometeram uma “grave interferência em assuntos internos da China”.
Segundo explicou em entrevista coletiva a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Mao Ning, Pequim decidiu aplicar as sanções como forma de “advertência e dissuasão”, depois que os ministros visitaram Taiwan e, no caso do paraguaio Villate, divulgou informações falsas sobre supostos “ataques cibernéticos chineses”.
Em conversa com a Sputnik, o especialista equatoriano em relações internacionais Santiago Carranco Paredes destacou que a postura do governo chinês marca uma mudança de estratégia em relação às políticas de Pequim do início do século XXI, quando apostava em “uma cooperação por meio de uma hegemonia benevolente”.
Essa postura, segundo ele, permitiu à China conquistar “muitos adeptos” na América Latina, sobretudo por meio do comércio e dos investimentos.
No entanto, comentou Carranco, as mudanças no cenário internacional parecem ter levado a China a complementar seu soft power (poder brando) com um sharp power (poder coercitivo), especialmente em relação a países da América Latina e do Caribe que mantêm o reconhecimento a Taiwan, e não à República Popular da China, como Paraguai, Guatemala e Belize.
“Essa estratégia responde diretamente a uma conjuntura mundial em que as hegemonias benevolentes já não estão usando a cooperação, mas optam pela coerção. Os EUA fizeram isso e estão obtendo resultados com seus sócios na Europa e na América Latina, por exemplo, com o Escudo das Américas“, explicou o especialista.
Para Carranco, essa postura chinesa também se sustenta no fato de que “já não estamos falando de uma China que era simplesmente uma alternativa“, mas de uma potência “consolidada como o primeiro ou segundo grande parceiro comercial de todos os países”, o que lhe permite transmitir suas posições de forma mais firme.
Nesse sentido, o especialista afirmou que, além de possíveis diferenças ideológicas com outros governos, a China impõe como requisito excludente “o respeito à política de ‘Uma só China'”, o que implica não manter relações com Taiwan. “Enquanto essa linha não for cruzada, não haverá problemas, e estas sanções são um aviso de quais são as linhas que não devem ser cruzadas”, apontou.
Além disso, Carranco assinalou que nações como Paraguai, Belize ou Guatemala acabam sendo “a voz de Taiwan em organismos multilaterais e espaços altamente simbólicos” e que, à medida que a China continuar se consolidando como potência, “chegará um momento em que exigirá que o reconhecimento a Taiwan deixe de existir”.
A sanção contra o ministro Villate foi rejeitada pelo governo paraguaio, que afirmou que a medida “gera atritos desnecessários”, mas ratificou seu “firme apoio à República da China (Taiwan)”. A gestão de Santiago Peña também recebeu o respaldo de Taiwan, que emitiu uma declaração no mesmo sentido.
Consultado pela Sputnik, o ex-vice-ministro de Minas e Energia do Paraguai e deputado Ricardo Canese ressaltou que o vínculo entre Paraguai e Taiwan só se mantém porque dirigentes taiwaneses aplicam uma “política do talão de cheques” com os governantes paraguaios, oferecendo recursos “para que façam o que quiserem, sem nenhum tipo de controle”.
Em sentido contrário, mencionou, cresce no país sul-americano a convicção de que estabelecer relações com Pequim seria mais vantajoso, tanto para o setor agroexportador, que poderia vender carne à China, quanto para a indústria paraguaia, que se abastece de máquinas fabricadas pelo gigante asiático em dois terços.
Canese apontou que o Paraguai “perde enormemente por ter relações com Taiwan e não com a China” e afirmou que “calcula-se que se perca uma cifra muito acima de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5 bilhões) por ano por não poder exportar para a China”. Isso, advertiu, poderia piorar muito se a China decidir seguir a linha dessas sanções e aplicar algum tipo de restrição ao envio de mercadorias chinesas ao Paraguai.
Nesse sentido, lembrou que, mesmo sem relações diplomáticas, a China é a principal origem das importações paraguaias, e os produtos chineses se tornaram fundamentais tanto para o comércio varejista quanto como insumos para a indústria do país sul-americano.
Fonte: Sputnik Brasil.
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