24 de janeiro de 2020

Vigilância no que entra pela boca – Saúde

Vigilância no que entra pela boca

Camila Cotta e Ubirajara Jr

O brasileiro está comendo menos arroz com feijão, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e isso é negativo. É o que diz a nutricionista Valéria Cristina Provenza Paschoal, que acredita faltar à população aquilo que chama de “educação nutricional”. Junto com empresas privadas, que, em certa medida, já realizam trabalhos de comunicação sobre o valor nutritivo dos alimentos, o poder público deveria realizar campanhas de esclarecimento para que o brasileiro aproveite melhor, inclusive, o que está no seu quintal, defende a nutricionista que dirige uma consultoria preocupada em disseminar “saúde” no contexto da nutrição. Paulista, mestre em Nutrição pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Valéria coordena o projeto “Nutrição e Qualidade de Vida”, da Associação Brasileira das Empresas de Refeições Coletivas e é autora do livro “Tratado de Nutrição Esportiva”. Nesta entrevista, ela fala sobre a relação entre alimentação inadequada e obesidade, o aparecimento da diabetes, a reposição hormonal feminina e a importância do acesso à informação sobre o alimentar-se corretamente.

C&T – Qual a diferença entre alimento funcional e nutricional?

Valéria – Alimento nutricional é qualquer alimento, aquele que tem proteínas, sais minerais, aminoácidos. Alimento funcional é aquele que além de ter vitaminas, minerais, aminoácidos, terá outras substâncias fitoquímicas, que são as substâncias bioativas. Esses alimentos funcionais acabam tendo um desempenho diferente no organismo no sentido de prevenir e tratar doenças. Essa é a diferença básica.

C&T – Hoje é grande o número de crianças que se tornam obesas muito cedo. Isso se deve a alimentação, ao tipo de alimento que elas estão consumindo, ou seja, pelas calorias consumidas ou pelo excesso de vitaminas nesses alimentos?

Valéria – Em relação às vitaminas, elas não têm calorias, então elas não engordam. O que tem calorias, são os carboidratos, as proteínas e, principalmente, os lipídeos. O que temos reparado nesses últimos anos é que as crianças começaram a ingerir mais gordura, mais fritura e mais carboidratos, que nós chamamos de carboidratos simples, refrigerante, doces, pães. Esse carboidrato simples acaba aumentando a produção de insulina, que leva à obesidade e a gordura que eleva o valor calórico. Paralelo a isso, o sedentarismo. Cada vez mais as crianças estão mais dentro de casa, em frente ao computador e à televisão. Assim comem mais e têm menos gasto energético. Isso é o que está levando à obesidade.

C&T – Na sua opinião, o brasileiro se alimenta adequadamente? Há mais qualidade ou quantidade na alimentação?

Valéria – Não. O brasileiro já teve um período em que se alimentava adequadamente, principalmente por que tem o hábito de comer o arroz com feijão, proteínas que combinam e tem um valor nutricional interessante e, por outro lado, misturava com carne, carne branca, frango e um pouco de hortaliças. De uns dez a 15 anos para cá, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a ingestão desses alimentos importantes tem diminuído. Hoje, o brasileiro está comendo muito mal.

C&T – O brasileiro se alimenta mal por que? Por preconceito e por não saber aproveitar o alimento?

Valéria – Acho que falta ao brasileiro uma educação nutricional melhor, falta entender o que é uma alimentação adequada e isso não cabe não só à iniciativa privada, mas ao governo com a instituição de programas que levem conhecimento à população. Há também a questão do melhor aproveitamento dos produtos. Para se ter uma idéia, o Nordeste é a região campeã em fortaminose “A”, que é a carência de vitamina “A”, e é a região mais rica em verdura, em vegetais com vitamina “A”. Por exemplo, numa casa você tem uma criança com fortaminose “A” e no quintal da casa está cheio de plantas com essa vitamina. Então, tem a questão da falta de informação e conhecimento e, lógico que há também a interferência da mídia. A mídia bombardeia com propagandas de salgadinhos, refrigerantes, de bebidas eletrolíticas. Hoje em dia, as crianças compram na cantina da escola as bebidas eletrolíticas, ou energéticas, que são destinados a atletas de uma hora e meia de atividade física. Em algumas cidades, como Florianópolis, virou obrigação ter, além de educação nutricional nas cantinas das escolas, uma alimentação adequada. Isso tem que se expandir pelo país todo, as crianças têm que aprender a comer frutas, tomar sucos. Estamos começando a formar essas crianças com uma educação alimentar saudável.

C&T – Com tantos projetos hoje, o número de profissionais na área de nutrição é suficiente?

Valéria – É suficiente e a minha preocupação é que esse número começa a ser até mais que o suficiente. Muitas faculdades estão abrindo e, ás vezes, não têm nem estrutura e nem corpo docente suficiente. Mas o conselho de nutrição já pensa em realizar provas de qualificação, como a da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

C&T – A cultura da estética, que tem presença pesada hoje em dia, influencia no habito alimentar?

Valéria – Com certeza. A cultura da estética influencia de uma forma, às vezes negativa e poucas vezes positiva. Mas muito mais negativa, pois as pessoas têm mudanças de padrão. Por exemplo, hoje a obesidade é criticada pela mídia, então é um problema estético, de magreza. Uma das conseqüências são adolescentes, garotos e garotas, de 9 a 10 anos, obesos, que vão para a escola e são discriminados, não arranjam namoradas, e mudam totalmente de padrão tornando-se anoréxicos. É algo muito complicado de se resolver.

C&T – Até que ponto a mídia e a propaganda têm responsabilidade?

Valéria – Há pouco tempo, eu discutia com o diretor da Sociedade de Pediatria o fato de terem assinado todo um programa de educação funcional que o McDonald´s está desenvolvendo em São Paulo. Fiquei pensando como que a sociedade apoiaria uma rede de fast food, cuja comida não é saudável. Então ele disse que não concordava com a minha posição, a empresa tem que fazer o marketing dela, mas cabe a população ter uma educação nutricional para selecionar. O McDonald´s está modificando o cardápio dele para ter comidas mais leves e nutritivas. O papel da sociedade é assinar o cardápio e ver se o que está sendo colocado está correto. A consciência tem que vir de cada pessoa. Se sou consciente, vou olhar e não vou comer.

C&T – A legislação de alimentos no Brasil é adequada?

Valéria – Ela é bem rigorosa. Por exemplo, na questão dos alimentos funcionais virou comum todas as empresas utilizarem nas embalagens linhagens nutricionais, como esse alimento ajuda prevenir e a evitar as doenças coronarianas. A legislação proíbe qualquer ligação com a saúde se você não tem uma pesquisa científica com seu produto, comprovada pela Escola de Medicina e por universidades federais. A legislação é bastante firme. Não sai nenhuma informação nas embalagens sem que antes tenha sido confirmada.

C&T – Como podem ser classificados os isotônicos e as bebidas energéticas?

Valéria – Elas são reprodutores de hidroeletrolíticos. Nós classificamos vários tipos de alimentos de acordo com os princípios ativos. Há alimentos no campo energético, condensadores, protéicos e os hidroeletrolíticos. Assim, essas bebidas, como o Gatorade, são reprodutoras de hidroeletrolíticos. Elas têm carboidratos, que geralmente é a sacarose. É uma bebida que acaba sendo na prática a nossa reprodução de soro, água, açúcar e sal. Sempre digo que as empresas fabricantes desses isotônicos estão ganhando milhões vendendo água, açúcar e sal. Existe um porquê da utilização dessa bebida, pois devido aos seus componentes, elas repõem os sais e nutrientes perdidos nas atividades físicas. Agora, para uma criança que não exerce atividade física, não justifica consumir. O excesso de sódio impede a absorção de cálcio. Essas bebidas deveriam ser vendidas apenas para o propósito de reposição de nutrientes perdidos pelo suor nas atividades físicas.

C&T – Até que ponto os suplementos fazem mal para os consumidores?

Valéria – Muitas vezes esses suplementos são necessários. Eles estão ligado a pessoas que não fazem uma alimentação adequada. O problema é que as pessoas, na correria do dia-a-dia, não estão conseguindo fazer uma alimentação adequada. Cabe a elas procurar um profissional de nutrição, para saber o que falta na alimentação e orientar-se. O que não concordo muito é com a venda indiscriminada desses produtos. Para um atleta que treina de amanhã e na hora do almoço e não tem tempo para almoçar, o suplemento é importante.

C&T – O biótipo da mulher brasileira favorece a obesidade?

Valéria – O biótipo da mulher está mudando. A brasileira antigamente tinha uma curvatura mais acentuada na cintura. Acontece que a alimentação das pessoas ficou muito em torno do açúcar, doces, refrigerantes, aumentando muito a gordura na região abdominal. As mulheres hoje estão mudando muito, quase não têm cintura, isso devido ao hábito alimentar.

C&T – Porque é cada vez maior o número de casos de diabetes em crianças?

Valéria – Fica muito claro que, cada vez mais, as crianças consomem muitos doces, refrigerantes, enfim, muito carboidrato. Com isso, acontece a liberação da insulina, a disponibilidade de consumir açúcar. Quando uma criança tem insulina em excesso, acaba desativando um dispositivo chamado betagenético. Esse dispositivo betagenético alterado passa a aumentar o consumo de potássio na região abdominal. A insulina circulante, nessa região, não consegue fazer com que a glicose atrevesse o ambiente da célula. Então a pessoa tem muita insulina e um montão de glicose circulante, que é a chamada Diabetes do Tipo 2, causada pela resistência periférica à insulina.

C&T – Você concorda com a frase: “uma boa alimentação evita o médico”?

Valéria – Com certeza. Os médicos, hoje em dia, estão preocupados com os nutricionistas. Se a gente come bem, não precisamos ir ao médico. O remédio é apenas um complemento.

C&T – Existe pré-disposição genética para engordar ou as pessoas engordam naturalmente?

Valéria – A gordura cada vez mais, em se tratando de obesidade, tem um fator genético. Os genótipos das pessoas vêm sendo estudado pois estão ocorrendo muitas alterações nos genes responsáveis pela obesidade.

C&T – Você concorda com a reposição hormonal da mulher?

Valéria – É uma questão muito complicada pois existem os médicos, nutricionistas que defendem a reposição hormonal natural e os que defendem as não-naturais. Em algum momento, pode ser que a mulher tenha que fazer a reposição hormonal sintética, pois durante a vida ela não se cuidou. Quando a mulher chega aos 45, 50 anos, vem a menopausa e depois a falta de estrógeno e a osteoporose. Às vezes, os profissionais não têm tempo hábil de tratar essa mulher, em termos hormonais, com a isoflavona da soja, que seria uma alternativa. Os orientais não fazem reposição hormonal sintética pois os alimentos consumidos são à base de soja. A isoflavona da soja impede que o excesso de estradiol que está sendo administrado consiga multiplicar as células cancerígenas. A isoflavona evita os cânceres dos órgãos sexuais.

C&T – Uma pessoa que se alimenta bem e mora em São Paulo, uma cidade estressante, e uma outra que não se alimenta bem e mora no interior, têm muitas diferenças na composição orgânica?

Valéria – Tem uma profunda diferença. A pessoa que mora em São Paulo é estressada por causa de toda a “confusão” da cidade grande e mora em um ambiente totalmente poluído. Essa combinação de estresse e poluição acaba com a transformação de radicais livres. Então, a alimentação saudável servirá mais ou menos para equilibrar. No interior, que tem menos estresse e menos poluição, com certeza, mesmo existindo alguns hábitos alimentares que não são saudáveis, há um impacto menor. Se a pessoa consumir um alimento com colesterol, vai aumentar o HDL, que é o colesterol bom. Além disso, os níveis de LDL (o colesterol ruim) são importantes. Mas também é importante se atentar à oxidação a qual essa partícula está sujeita. Essa oxidação é realizada pelos radicais livres, em que situações de estresse e sob poluição estão presentes no organismo em maior quantidade, podendo promover oxidação excessiva das partículas LDL.

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