18 de fevereiro de 2020

De onde vem a FÉ – Comportamento

Por que, na era da tecnologia e da ciência, a religiosidade não pára de crescer?

De onde vem a FÉ – O que explica a religiosidade humana? Em plena era da clonagem, dos transplantes de órgãos e da internet, milhões de pessoas buscam apoio em “uma força superior” que comande todo o Universo, inclusive suas próprias existências. No Brasil, mais de 90% da população crê em Deus, segundo dados preliminares do Censo de 2000, divulgados pelo IBGE, em maio/02. Nos Estados Unidos, essa porcentagem já ultrapassou os 96%. Nos últimos dez anos, foram criadas cerca de 100 mil novas religiões no mundo.
Os números não deixam dúvidas de que o poder da fé é global e que, ao contrário do que se acreditava no início do século 20, nem mesmo a secularização da educação, aliada ao avanço da ciência e da tecnologia, foram suficientes para diminuir a presença de Deus na vida humana. Por que essa necessidade de ter fé? Algumas das hipóteses formuladas por filósofos e cientistas sociais, ao longa da História e, recentemente, pela medicina e psicologia, podem ser um bom caminho para ajudar a encontrar – ou pelo menos procurar melhor – parte dessas respostas.
Um dos fenômenos da fé mais intrigantes, no momento, é o crescimento acelerado das igrejas evangélicas – como são conhecidas as instituições protestantes, em seu conjunto -, sobretudo as denominações pentecostais e neopentecostais, das quais fazem parte a Assembléia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus, respectivamente.
De acordo com os dados do Censo 2000, a população evangélica brasileira já soma mais de 26 milhões de fiéis. Em números absolutos, é o dobro do contabilizado há nove anos. Nesse período, a Igreja Católica, apesar de ainda ser a maior do país, com um contingente atual de cerca de 125 milhões de pessoas, perdeu aproximadamente 12% de seus seguidores.
O que significa o fato de milhares de pessoas serem atraídas para uma doutrina religiosa? Qual a relação entre conversão e fé? São muitas as respostas, e, para entendê-las, é preciso diferenciar fé, crença e religião.
A palavra “fé” vem do latim “fides”, que significa “fiar-se de”, “ter confiança”. Essa confiança pode se referir às crenças, mas vai além da religião, esclarece o teólogo Fernando Altemeyer, da PUC de São Paulo. “Podemos considerar nossa própria existência um ato de fé: duas pessoas confiaram uma na outra, entregaram-se e deram origem a uma terceira. Não estaríamos vivos, se não fosse a fé. Ela faz parte da natureza humana”, explica. Crença é o conjunto de afirmações que fazem parte de uma doutrina religiosa, como a promessa de vida eterna, ou os dons de cura do Espírito Santo.
Segundo estudiosos do assunto, a fé religiosa seria a maneira encontrada pelo homem para preencher o “vazio transcendental”, ou seja, procurar um significado para a própria existência e – literalmente – “jogar nas mãos de Deus”, ou confiar no divino, para resolver tudo o que não consegue solucionar por meio da razão. Essa fé seria um mecanismo para aplacar a angústia frente ao desconhecido, seja ele dúvidas existenciais milenares, do tipo “de onde viemos” e “para onde vamos”, ou problemas terrenos, como dificuldades financeiras, doenças e relações afetivas conturbadas.
“Jesus já pagou” – Há várias explicações sobre o sucesso das novas igrejas evangélicas. “Enquanto a Igreja Católica prega o sofrimento na Terra, os neopentecostais ensinam que Jesus já pagou o pecado das pessoas na cruz e que, portanto, elas não precisam sofrer mais”, diz o pastor Anderson Angelotti Moraes, da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, que é neopentecostal.
Os especialistas são unânimes ao associar os momentos de dificuldade ao aumento da necessidade religiosa. E é justamente ao oferecer solução para qualquer tipo de crise, que as igrejas evangélicas atraem fiéis de todas as idades e classes sociais.
A salvação da pele – Ainda que a conversão às doutrinas evangélicas, sobretudo aos cultos neopentecostais, seja maior nas camadas mais pobres da população, esse discurso “mágico” também atrai a classe média. “Igrejas como a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra e Renascer em Cristo trocam os rituais de exorcismo e as correntes de emprego pelas injeções de auto-estima. Por isso também funcionam entre os mais ricos”, explica Ricardo Mariano. Existem cultos evangélicos até para os mais surpreendentes grupos, como o de jovens surfistas e metaleiros.
Os fins podem ser diferentes (livrar-se da miséria, ou parar com as drogas), mas o motivo pelo qual as pessoas depositam fé nessas doutrinas é a promessa de soluções concretas e mediatas. O sucesso na resolução dos problemas tornar-se estímulo para a prática da religião e fortalece a fé.
Voltando ao primeiro aspecto da essência da fé: se os especialistas a definem como uma necessidade inerente ao ser humano, uma espécie de ferramenta usada para encontrar o sentido de sua existência e ajudar a enfrentar as adversidades, qual seria a explicação para aqueles que se dizem ateus, ou sem religião? Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que o fato de um indivíduo não freqüentar uma igreja, não significa que ele não tenha algum tipo de fé, no sentido religioso.
É por isso que não está correto olhar para os dados do Censo 2000, relativos ao crescimento do grupo dos sem-religião (de 4,8% para 7,3% da população), e dizer que aumentou o número de brasileiros que não têm fé.
Ao contrário do grupo dos não-praticantes, o dos ateus, definitivamente, não acredita em Deus (ou em qualquer outra entidade divina) e nega a validade dos argumentos em favor das crenças religiosas. Segundo os especialistas, a fé tende, nesse caso, a se manifestar de outra maneira.
Neurônios que crêem – A sensação de transcendência, obtida com reza ou meditação não é fruto da imaginação. Ela é biologicamente real e pode ser verificada cientificamente. É o que mostrou Andrew Newberg, radiologista da Universidade da Pensilvânia, que conseguiu obter imagens das modificações cerebrais que ocorrem durante esses momentos. O estudo está relatado no livro “Why God Won’t Go Away”. Participaram da experiência um grupo de budistas tibetanos e de freiras franciscanas, que se submeteram a exames de tomografia enquanto meditavam ou rezavam. As imagens mostraram uma redução na atividade da região do lobo parietal, responsável pela nossa orientação espacial. Ela nos ajuda a distinguir ângulos e distâncias e a diferenciar os limites de nosso próprio corpo. Sem essa orientação, não conseguimos nos localizar no espaço físico ou mentalmente. Para Newberg, a origem das religiões pode ter base nesse processo cerebral, vivido por uma pessoa em circunstâncias não necessariamente espirituais, e relatado para o grupo como uma experiência divina (seja o homem das cavernas tendo a visão de um espírito após dias sem comer, ou Moisés ouvindo os Dez Mandamentos). “É improvável que esses mecanismos cerebrais tenham se desenvolvido por motivos espirituais. Acredito que foi adotado durante a evolução, pois as crenças e atos religiosos seriam benéficos para o organismo. Diversos estudos ligando saúde e fé têm demonstrado isso”, escreveu o autor.

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