Por que a febre aftosa voltou
PublicidadeDescaso, corrupção e ganância fazem ressurgir a febre aftosa no maior pólo produtor de carnes do país. O prejuízo é incalculável
Deve-se ao agronegócio uma das contribuições mais relevantes à recuperação da economia brasileira nos últimos três anos. O crescimento dramático da produtividade agrícola, associado à conquista de novos mercados, rendeu divisas cruciais para a melhoria das finanças do país. Esse avanço fica patente no resultado das exportações. Em 2000, somavam 55 bilhões de dólares. Saltaram para 96 bilhões de dólares em 2004.
No mesmo período, a participação do agronegócio nas vendas externas aumentou de 15% para 25%. Esses números já eram conhecidos. O que não se sabia é que sob essa aura de sucesso se escondiam males arcaicos do setor agrícola brasileiro – como o descaso oficial e o conluio entre fiscais corruptos e produtores gananciosos. Ao que tudo indica, esses vícios foram responsáveis pelo aparecimento de um foco de febre aftosa em 142 cabeças de gado em Eldorado, Mato Grosso do Sul, região que abriga o maior plantel bovino do Brasil, com 20 milhões de animais. Agora, ao menos parte do avanço brasileiro no setor agropecuário poderá ser revertida.
A febre aftosa é devastadora para os países produtores de bois, porcos, ovelhas e cabritos. Isso porque o animal contaminado perde peso, produz menos leite e recomenda-se que seja sacrificado. Foi porque aparentemente a doença havia sido controlada em regiões como Sul e Centro-Oeste que a carne fresca dessas áreas conseguiu abrir novos mercados.
E estava prestes a desembarcar nos Estados Unidos e no Japão, as duas maiores economias do mundo. Com a descoberta do problema, esse ingresso fica no mínimo adiado. Mais de trinta países já suspenderam total ou parcialmente a compra da carne brasileira, por temer a contaminação de seus rebanhos. Estimativa da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) fixa em pelo menos 1 bilhão de dólares os prejuízos para as exportações do país com a crise deflagrada pela doença.
Como de hábito, o governo reagiu ao vendaval com o freqüente empurra-empurra de responsabilidades. A administração de Mato Grosso do Sul, do PT, reclamou de falta de verbas federais para o combate à doença. O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, jogou o problema no colo do colega Antonio Palocci, da Fazenda, reclamando da contenção de recursos. Palocci foi chiar com Lula, dizendo que o problema é de falta de gestão, não de dinheiro. Em Portugal, o presidente fugiu da briga ao empurrar a culpa para os produtores, que, segundo ele, deveriam cuidar melhor de seus rebanhos.
O fato é que não se sabia até sexta-feira como o problema surgiu. Indícios apontam para a hipótese de o vírus ter vindo do Paraguai para o Brasil, em animais contrabandeados por negociantes gananciosos, com a ajuda de fiscais corruptos. A fazenda contaminada fica a 30 quilômetros do país vizinho. Na divisa, há um trecho chamado de fronteira seca, sem barreiras nem fiscalização, por onde passa de tudo: drogas, armas e também gado irregular.
Os animais paraguaios custam no mínimo 30% menos que os brasileiros. Para "esquentarem" os bichos no Brasil, os contrabandistas armam esquemas para obter falsas Guias de Trânsito Animal (GTAs), concedidas pela Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro). Com as guias "compradas", os contrabandistas não só fingem que o gado veio de outro destino como atestam que já foi vacinado. "Esse tipo de prática é contumaz na região", diz o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso do Sul, Roberto Rachid Bacha.
O Iagro é investigado desde 2003 por corrupção e falsificação de documentos. A Polícia Federal mantém pelo menos dez inquéritos em andamento sobre o assunto. Uma das investigações, que indica a falsificação de 475 guias, só não avança porque o Iagro não fornece as informações solicitadas pela polícia. A descoberta de corrupção coincidiu com o período em que o órgão era presidido por José Antonio Felício – amigo pessoal do governador Zeca do PT e primo em primeiro grau do presidente nacional da CUT, João Felício. Advogado tributarista sem formação no setor agrícola, o Felício do Mato Grosso do Sul deixou o Iagro em novembro de 2004. Hoje representa o Ministério da Agricultura no estado. "Foi por meu empenho que essas irregularidades foram detectadas", diz.
Luiz Vezozzo, um dos donos da fazenda onde surgiu a aftosa, afirma ter se surpreendido com a doença porque vacinou seu rebanho. Agora, quer ser indenizado. Além dos 142 animais doentes, todo o gado da propriedade, 584 cabeças mais oito porcos, foi sacrificado para eliminar o risco de propagação do foco. Fiscais do Ministério da Agricultura e os fabricantes da vacina desconfiam dessa versão. "Não me recordo de nenhum caso de aparecimento da doença depois da utilização correta desse tipo de vacina", diz Emílio Salani, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Saúde Animal (Sindan).
O presidente Lula e representantes do governo prometem liberar novas verbas para o combate da doença. Aproveitam compromissos no exterior para convencer os compradores da carne brasileira de que o problema se limita aos municípios de Eldorado, Itaqueraí, Iguatemi, Novo Mundo e Japorã.– onde também existe a suspeita de gado contaminado. Tanto esforço retórico pode ser insuficiente, já que a febre aftosa funciona como a doença da corrupção: não adianta convencer-se de que está tudo certo. É preciso convencer os outros de sua inocência. Diante de tudo isso, resta, agora, reconstruir pacientemente e sem falhas a credibilidade da pecuária brasileira no exterior.
No Ibama, desleixo e corrupção
A corrupção, assim como as bactérias, dissemina-se com maior velocidade em organismos fragilizados. No Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a desordem administrativa e as irregularidades gangrenaram um órgão vital do Estado brasileiro. Justamente o que cuida da saúde do meio ambiente do país. Um relatório recém-concluído da Controladoria-Geral da União, sobre a gestão em 2004, lista 22 grupos de irregularidades cometidas pela administração do instituto.
A lista inclui compras ilegais de passagens aéreas, desaparecimento de automóveis, contratos com fornecedores que simplesmente não prestaram os serviços e pagamentos irregulares de auxílio-moradia. Há casos prosaicos, como a realização de um café-da-manhã para 1 500 servidores, sem embasamento legal. Quem convidou foi a ministra Marina Silva, mas a responsabilidade recaiu no ex-diretor que assinou a papelada, Leonardo Tinôco, sobre o qual já havia suspeita mais grave. Tinoco contratara a empresa Stratégia Consultores S/C por 1,9 milhão de reais, sem licitação. A empresa está em nome de pessoas ligadas a ele.
A CGU solicitou ao presidente do Ibama, Marcus Barros, que apurasse a denúncia, mas ainda não obteve resposta. Também soa irônica, por óbvia que é, a recomendação dos auditores da CGU para que sejam exigidas pelo Ibama notas fiscais como comprovação de despesas. Toda essa balbúrdia desaguou no estado de apodrecimento da máquina do Ibama. A importância do relatório da CGU é mostrar o caldo de cultura no qual a corrupção nasce e se desenvolve. Foi nele que surgiu o mercado paralelo das chamadas autorizações para transporte de produtos florestais, denunciado por VEJA em junho. Com essas autorizações, as madeireiras conseguiam desmatar muito além de sua cota.
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