O poder da superstição e dos rituais
PublicidadeO que é superstição e quais as motivações que estão por trás de algumas das mais antigas crenças do ser humano. - por Texto Erika Sallum
Superstições são tão antigas quanto a humanidade. Existem desde a época em que os primeiros grupos humanos louvavam a natureza com seus rituais pagãos. Antes de o cristianismo se tornar religião oficial do Império Romano, por exemplo, no século 4, magia e superstição eram costumes bastante populares. Os homens daquela época viviam mais próximos dos seus deuses, e fazer pequenos feitiços era tão normal quanto plantar ou colher. Até que as religiões monoteístas deflagraram uma guerra ao paganismo e à feitiçaria, condenando qualquer um que não concordasse com suas regras de comportamento. Superstição virou sinônimo de ignorância, coisa de povos “menos desenvolvidos”.
“É complicado definir o que é exatamente superstição. Porque a crença do outro é sempre a supersticiosa, nunca a nossa”, diz Ricardo Mário Gonçalves, professor aposentado de história das religiões da USP. “Superstição envolve avaliações extremamente subjetivas. Ficamos todos com a impressão errada de que só os fracos acreditam nessas bobagens”, afirma. Professor do Departamento de Sociologia da USP e autor do livro A Magia, Antônio Flávio Pierucci vê na confissão católica, que permite zerar os pecados praticamente num vapt-vupt com o padre, um bom exemplo de como o que é crença para uma pessoa pode facilmente soar como esquisitice para outra. “Os protestantes acham a absolvição (confessional) algo esquisitíssimo, quase feitiçaria. Tudo depende do ângulo pelo qual avaliamos os costumes alheios”, afirma .
Mas, apesar de ser possível apontar características supersticiosas dentro de praticamente todas as religiões, os pesquisadores consideram um equívoco confundir as duas coisas. “Religião não é magia. Enquanto uma prática supersticiosa, como uma simpatia ou um talismã, serve para melhorar nossa existência aqui e agora na Terra, a religião trata da vida espiritual. A superstição traz um benefício imediato, enquanto a religião busca a paz divina, envolvendo normas éticas e códigos de conduta”, diz Pierucci.
Diferentemente da religião, a superstição tem fins específicos. Apelamos para ela quando precisamos de uma “forcinha” a mais, venha ela de onde vier. Que mal há em ter sobre a mesa do escritório uma pequena ferradura que um amigo deu de presente? Desde a Grécia antiga, o objeto é considerado um amuleto, por vários motivos. Primeiro, porque na época era feito de barro, material que os gregos pensavam proteger contra o mal. Segundo, porque seu formato lembra a Lua, símbolo de prosperidade. O talismã ganhou, séculos depois, a simpatia dos romanos. A fama dura até hoje.
Pequenos rituais, como comer lentilha no Réveillon (já que o grão, quando cozido, aumenta de tamanho, o que significa crescimento e fartura, segundo a tradição grega), geralmente não dão muito trabalho e são quase sempre acessíveis a todos, pobres ou ricos. Assim, resistem ao tempo. “As superstições sobrevivem por causa de nossa eterna busca pela segurança, algo inerente à natureza humana. Para nossa decepção, nem tudo é explicável, e a ciência sabe muito bem disso. Procuramos encontrar tudo certinho num mundo nada certo e, quando isso não acontece, lançamos mão do sobrenatural, sem grandes culpas”, diz o professor Gonçalves. Trata-se de algo saudável, que nos ajuda a encarar os desafios, a diminuir nossa ansiedade e a ter fé em que tudo, no final, vai dar certo.
O que há de novo
Fórum Mundial da Água começa com alertas sobre escassez de água doce
O Sexto Fórum Mundial da Água foi inaugurado na manhã desta segunda-feira em Marselha, no sul da França, com milhares de delegados que discutirão como encontrar soluções para garantir o acesso à água doce em condições sanitárias decentes para todos no mundo.
... Leia +



Poste seu comentário