O
lindão é sério!
Aqueles que enxergam em Javier Bardem um banquete
para centenas de talheres, servido de tempos em tempos
na tela de cinema, precisam urgentemente mudar de
dieta. O ator espanhol de 33 anos catapultado para
a fama desde sua indicação ao Oscar,
ano passado, por sua impressionante atuação
no filme “Antes do anoitecer”, avisa que
está decidido a apagar a imagem de símbolo
sexual latino. O último esforço nesse
sentido chama-se “Dancer upstairs”, um
thriller político dirigido pelo estreante John
Malkovich. Aqui, o garanhão de filmes de títulos
sugestivos como “Jamón, Jamón”
e “Ovos de ouro” surge vestindo ternos
impecáveis e fazendo cara de policial atormentado.
_ “Jamón, Jamón”, meu
primeiro filme importante, tem mais de dez anos.
Não creio que vocês me verão
mais daquele jeito novamente. Tenho dito não
a todas as propostas semelhantes. Quero fazer filmes
que valham ser vistos — diz o parrudo astro
de 1,90m de altura, em entrevista ao GLOBO, durante
o Festival de Veneza, onde o filme de Malkovich
ganhou projeção especial.
— Não que eu me arrependa desses trabalhos.
Mas não tenho muito entusiasmo por eles.
Eu era mais jovem e estava disposto a experimentar
de tudo. Acho que amadureci.
Ele conquista a simpatia de mulheres e gays
Curiosa ambição para quem cavou seu
espaço no cinema espanhol às custas
de seu sex appeal. No início dos anos 90,
Bardem era a personificação do macho
latino, que atraía para a cama (na ficção)
atrizes como Maria de Medeiros e Penelope Cruz.
Hoje, o ator demonstra um certo desconforto até
com as fotos promocionais daquele período.
Como a publicada recentemente pela revista italiana
“Ciak”, em que ele aparece usando apenas
um chapéu de caubói e uma calça
jeans, músculos moldados pelo rúgbi
à mostra.
— Essa foto é divertida e erótica,
mas é horrível — comenta, pedindo
para mudar de assunto. — Não sou muito
ligado na minha aparência. Acho que tenho
traços vulgares.
De qualquer forma, foi esse look “vulgar”
que ajudou a sedimentar sua carreira nas telas —
o fato de ser neto do cineasta Rafael Bardem também
contribuiu. O gosto pelo teatro, herdado da mãe
Pilar Bardem, grande dama da arte em seu país,
ficou em segundo plano depois que cineastas como
Bigas Luna, Vicente Aranda e Pedro Almodóvar
descobriram o magnetismo físico do ator.
A virada decisiva aconteceu com a repercussão
de “Antes do anoitecer” (2000), de Julian
Schnabel, no qual viveu o poeta cubano e homossexual
Reinaldo Arenas.
O papel era um desafio à recém-adquirida
fama de garanhão espanhol. Bardem emagreceu
quinze quilos para caber na fisionomia franzina
de Arenas, intelectual perseguido por suas posições
políticas e sexuais. O fato de estar vivendo
um personagem homossexual era o que menos incomodava.
No final das contas, acabou conquistando a simpatia
do público gay.
— Se você prestar bem atenção,
passo quase metade de “Antes do anoitecer”
no banheiro ou tomando banho — conta o ator,
com um malicioso sorriso nos lábios, entre
goles de Coca-Cola light.
A namorada é de Madri mas não é
do meio artístico
Para o novo Bardem, a beleza pode ser um fardo.
Particularmente para as mulheres.
— Hoje em dia, o potencial de uma atriz é
baseado em sua beleza. Não há opções
para aquelas que sejam menos atraentes para a câmera
ou para o público. Tudo é pesado em
termos de padrão de beleza. Há muitas
boas atrizes por aí sem trabalho porque não
se encaixam em determinados parâmetros —
lamenta o ator.
Desde a indicação ao Oscar, que lhe
garantiu exposição extra, Bardem fechou
ainda mais o cerco sobre sua vida particular. Diz
que mora em Madri e que não cultiva hobbies.
Continua adorando rúgbi e detesta futebol.
Na adolescência, chegou a pensar em se tornar
pintor. Desistiu porque percebeu que era “um
pintor muito preguiçoso”. O que se
consegue arrancar do grande sedutor das telas sobre
sua vida amorosa é muito pouco:
— Estou namorando uma jovem de Madri. Ela
não é do meio artístico, portanto,
não vai interessar à imprensa. E não,
ainda não pensamos em casamento.
O rosto de Bardem volta a se descontrair quando
o assunto é a profissão. Diz que cresceu
admirando conterrâneos como Paco Rabal e Fernando
Rey. Mas seu grande modelo dramático é
o americano Al Pacino.
— Quando eu o vi em “Scarface”,
na TV, ainda muito jovem, disse para mim mesmo:
“Quem é esse cara? É esse tipo
de atuação que eu gostaria de fazer.”
Ele disse numa entrevista recente que fazer teatro
é como andar numa corda bamba; e fazer cinema
é como andar numa corda estendida no chão.
E ele está absolutamente certo — diz
Javier.
Autor : Carlos Heli de Almeida
Créditos : Anna Beth
Fonte : O Globo