Meditação
- O caminho sem caminho
É através da meditação
que o Homem pode alcançar o que vem buscando
desde o início de sua existência; é
o meio de obtermos as respostas a todas as perguntas
primárias. Diferente do que é dito e
ensinado por muitos aqui do Ocidente, meditação
não é relaxamento, pelo menos, este
não é seu propósito. Quem medita
com a intenção de relaxar, não
está meditando, está apenas relaxando.
Portanto, compreender o que é meditação
é o primeiro passo.
A palavra em sânscrito dhyana, foi, segundo
Helder Carvalho, prof. de Yoga do Instituto de Yoga
e Terapias Aurora, mal traduzida como meditação.
Meditação significa pensar, refletir
sobre algo. E isso é o que dhyana não
é. Helder diz que seria melhor compreendida
se a palavra tivesse sido traduzida como contemplação
, o verdadeiro significado do que é chamado
de meditação. "A meditação
(dhyana) é um estado observativo e não
participativo", diz o professor.
O verdadeiro caminho é o interno.
Diferente do que é ensinado e dito aos ocidentais,
meditação não "serve"
para relaxar; o objetivo da meditação
é muito maior. Meditar é o meio de
trazer a auto-realização . Helder
explica que a auto-realização é
a resposta a todas as perguntas primárias
do Homem - quem eu sou, de onde eu vim, para aonde
eu vou. Estas perguntas permanecem até hoje
sem resposta justamente porque o Homem tenta encontrar
lá fora o que na verdade está dentro
dele . Como fala o professor: "A auto-realização
não está lá fora, não
está na Índia ou em nenhum reduto
místico, e sim, em você mesmo."
Por isso que meditação é chamado
de "o caminho sem caminho", complementa.
Patanjali, o codificador do Yoga Clássico
e criador do Yoga Sutra (livro onde são encontrados
todos os "tipos" de Yoga) ensinou um método
de meditação, conhecido como Raja
Yoga ou Yoga Real. Este método, inclui 8
componentes (veja quais são todos em Saiba
Mais) e dhyana (meditação) é
o sétimo estágio. Por aí, já
é possível ter uma idéia de
como é complexo chegar à meditação,
e, mais ainda, a auto-realização (samadhi),
o objetivo final. Helder diz que são necessários
não anos, mas vidas, para se alcançar
tal objetivo.
"Não existem técnicas de meditação,
existem técnicas de concentração."
Todos os dias surgem novas técnicas de "meditação",
prometendo relaxamento, paz interior etc. É
meditação da flor de Lótus,
meditação do globo azul, meditação
da luz dourada e etc. Porém, o professor
de Yoga explica que não é nada disso
e as pessoas fazem uma tremenda confusão.
"Isto que é chamado de 'tipos de meditação',
são, na realidade, a preparação
à meditação -o chamado dharana
, que é o estado de concentração
" (Dharana é o sexto estágio
do Raja Yoga). É importante ressaltar que
todas estas técnicas são importantes,
pois sem a concentração é impossível
chegar ao estado de meditação.
A concentração ou dharana é
um exercício da mente para focá-la
num único objeto, para que a pessoa possa
abstrair-se e não pensar mais, só
observar.
A ansiedade, a vida agitada, a falta de trabalho
corporal e os apegos à matéria, são
os grandes responsáveis pela dificuldade
que o ocidental encontra ao tentar meditar
A maior parte das pessoas não consegue meditar.
"Quando sentam para meditar, algumas conseguem
parar e relaxar por alguns minutos; outras, conseguem
desligar-se; poucas conseguem concentrar-se; e menos
ainda, conseguem meditar", constata Helder.
A explicação para tamanha dificuldade
está no estilo de vida do ocidental. Tudo
no Ocidente leva o indivíduo para fora de
si mesmo - a vida agitada atrapalha na hora de sentar
para desligar-se de tudo. Muitas pessoas até
tentam parar um pouco, sentar e tentar meditar,
mas o ritmo é tão intenso e estressante
que quando se tenta parar, as contas, os compromissos
familiares, as cobranças com os horários,
a agenda lotada, enfim, vem tudo à cabeça
quando se fecha os olhos por alguns instantes.
A única forma de se vencer este obstáculo
inicial é ser persistente. Quando todos os
problemas começarem a aparecer, deve-se não
se deixar abalar por eles, pois logo outras imagens
e informações surgirão. Helder
nos compara a uma alcachofra - você tira as
folhas e fica só com o miolo. O miolo é
a auto-realização, é a essência,
o que o Jung chamou de Self, que somos nós.
As folhas são os problemas e posses que nós
pensamos ter, os compromissos do trabalho, as contas
do mês que temos que pagar, a casa, o carro
e todas as coisas pequenas do dia-a-dia que abarrotam
nossa mente, nos sufocando.
O objetivo da meditação é
despir as cascas que existem em nós. Helder
dá um conselho: quando sentar para meditar
e os problemas surgirem, pensar: eu sou a conta
que tenho que pagar? Não; sou o dinheiro?
Não; sou o meu trabalho? Não; sou
o problema com meus familiares? Não; e ir
retirando uma por uma, todas as cascas, até
ficar só com a essência.
Outro problema que sempre ocorre com os iniciantes
é a falta de trabalho corporal. A pessoa
senta e não consegue ficar parada, imóvel,
durante muito tempo. O jeito é ir devagarinho,
tentando ficar sentado, com a coluna reta o máximo
de tempo que conseguir. Helder fala que depois de
2 horas meditando você sente a mudança
do fluxo de energia - a chamada Prana, ou Energia
Vital, em seu organismo e aí você tem
um insight; após 4h, um insight maior ainda
e quanto mais tempo você ficar, mais tempo
você observa a mudança de energia e
é isso que leva ao estado real de meditação
e a auto-realização. "Enquanto
a pessoa não conseguir, senta e relaxa que
é ótimo; não será meditação
no sentido real da palavra, mas nem por isso deve
deixar de ser feita; precisa ser feita!" diz
Helder. Mesmo quem não consegue meditar,
já estará aprendendo a se concentrar,
e é um estado paliativo que vai se plenificando
até que se torna o estado real , aos poucos.
Apesar de parecer impossível, com todos
estes obstáculos, o professor nos lembra
que toda caminhada começa com um primeiro
passo. Sobre este primeiro passo, Bhagavad Gita
, que seria uma espécie de "Bíblia"
indiana, diz que a simples intenção
em praticar, já nos beneficia. "Quando
você se dispõe a fazer um trabalho
de auto-realização, você já
está no caminho dessa auto-realização",
completa Helder.
Fonte: Entrevista com o prof. Helder Carvalho publicada
no site Mais de 50 em dezembro de 2000.